Metáfora

19/06/2009
mascara

“Diga, quem você é, me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida
Tira a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro, jeito de ser…”
Máscara (Pitty)

Abri o velho baú há muito não utilizado e olhei para tudo aquilo que há tanto não via. Revirei os velhos pertences e achei o que procurava, o que  necessitava para o momento: a máscara.
Ela era perfeita: um meio sorriso cínico que dava um ar de simpatia e que provavelmente evitaria as insuportáveis perguntas que não aguento mais responder. Afinal, a cada ‘como você tá, tudo bem?‘ que ouço, tenho vontade de gritar e dizer que não, não estou bem, que sei que vai passar, mas que não quero ficar pensando nisso.
Parei na frente do espelho e coloquei a máscara. Imediatamente me senti uma nova pessoa. A máscara surtiu efeito até para mim. Eu estava ali, sorrindo, feliz, tudo estava bem. O bom e velho Autor, bem humorado, divertido, relaxado, estava de volta.
A vida continuava, traumas superados.
E se por debaixo da máscara as coisas não são bem assim, ah, isso não importa! A gente é a imagem que a gente vende.
Essa máscara é realmente muito boa… Não importa se por baixo dela estou vertendo lágrimas; com ela, todos vêem apenas o sorriso.
Um sorriso torto, cínico. Um sorriso falso.
Afinal, a vida nem sempre é o que parece. E de porrada em porrada a gente aprende. Ou finge aprender.


Sobre a Nossa Finitude

12/06/2009

luto“É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando eu me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais…”
Love in the Afternoon
(Legião Urbana)

Meu avô faleceu na última quarta-feira.
Não era esperado, mas também não nos pegou totalmente desprevenidos. Ele tinha 76 anos e tinha sofrido dois derrames na última semana. Estava internado no hospital, mas seu quadro era estável.  Até que na quarta-feira ele não acordou; amanheceu morto.
Eu estava a caminho do trabalho quando minha mãe ligou me avisando e tive pouco tempo para sair do Rio, passar em Petrópolis e seguir em direção à cidade dos meus pais.
Foi estranho demais; não gosto de velórios.
Eu não era muito íntimo do meu avô, mas também não era distante. Tínhamos uma relação cordial, apesar da diferença de idades. Eu sou o neto mais velho dos meus avós paternos, mas apesar disso nunca fui o mais mimado, já que sempre fui muito independente e cabeça dura. Mas não pude conter as lágrimas ao me dar conta de que não veria mais meu avô sentado em frente ao portão da casa dele, jogando conversa fora, rindo com os amigos e me dizendo pra não estacionar o carro em frente da casa daquele vizinho insuportável.
Mas, ver minha avó sendo tão forte foi um consolo. Lembro-me dela me abraçando, chorando e dizendo que meu avô tinha muito orgulho do neto que tinha.
Dirigindo de volta para Petrópolis, depois do enterro, estava pensativo. Em como a vida é curta, em como tudo é passageiro. Hoje acordamos cheios de certezas que se vão numa velocidade impressionante. Pensava no meu avô, mas pensava em mim, em nós que aqui ficamos.
E, com tanta coisa ruim acontecendo, chorei feito criança enquanto dirigia.
Chorei por meu avô. Chorei por minha avó. Chorei por meu pai.
E chorei por mim, pelas minhas perdas. E prometi que por mais que tudo esteja doendo, não vou permitir que morra um pedaço de mim.
Afinal, a vida sempre segue seu curso. E não temos tempo para juntar os nosso pedaços.


O Novo Coordenador

09/06/2009

nerd“Ah, todo chato é bonzinho
Nunca nos faz nenhum mal
Ah, todo chato é calminho
Como se faltasse sal
Ah, todo chato te conta
Onde passou o Natal
E sempre te da um dica
De onde ir no carnaval…”
O Chato (Oswaldo Montenegro)

Almoço com outros três Consultores Comerciais da minha empresa, num total de duas meninas e dois rapazes (eu, um dos rapazes, claro).
Nosso assunto preferido? O nosso novo coordenador.
Para terem uma melhor idéia, deixem-me explicar como funciona a empresa, o que por si só é uma coisa meio doida. É uma empresa pública de abrangência nacional. Somos todos empregados públicos, entretanto, regidos pela CLT. Uma vez que se ingressa na empresa, por concurso público dentro do seu cargo, você pode ascender fazendo processos seletivos internos, como o que eu fiz para Consultor Comercial. Na mesma época do meu processo seletivo tinham outros três abertos, para funções específicas, entre elas, para o de Coordenador Comercial, que teoricamente, é o chefe dos Consultores. Mas tem um porém aí: os Consultores ganham mais que o Coordenador. Na prática, um Consultor tem uma carteira de grandes clientes e vira uma babá desses clientes, devendo cuidar deles para que tudo funcione e eles continuem satisfeitos e utilizando a empresa. O Coordenador tem também uma carteira de clientes, mas que é infinitamente maior do que a de um Consultor (só como exemplo, minha carteira tem 20 clientes, a do Coordenador uns 300), já que ele cuida de clientes de pequeno porte. Mas, convencionou-se, que o Coordenador também seria o chefe imediato dos Consultores. Entenderam a zona? Alguém que ganha menos que você acaba achando que é seu chefe (o que não é na prática).
Pois nosso adorável Coordenador fez o mesmo processo seletivo que nós fizemos para Consultor e passou em último lugar (e não foi chamado) além de fazer o de Coordenador.
Detalhe, todos nós sabemos que ele ficou em último pra Consultor, já que a lista de aprovados é divulgada nos meios de comunicação da empresa. Detalhe dois: ele não tem experiência nenhuma na área comercial, NENHUMA mesmo.
E o cara chegou botando banca. Só que ele encontrou uma equipe que cagou e andou para ele e não o leva a sério. A banca durou dois dias já que ele ficou desesperado com a demanda de trabalho com a qual ele não sabia lidar.
Agora, aos poucos, vamos descobrindo várias coisas sobre ele. Nosso chefão, diretor da ‘filial’ que trabalhamos é reconhecido como difícil de se lidar, mas o cara é foda, cheio de contatos e com uma fama de conseguir sempre o que quer. Eu mesmo, estava temeroso de trabalhar com ele. Nosso querido Coordenador, quando convocado para assumir sua vaga, não foi convocado para nossa filiar e sim para uma outra, considerada um dos melhores lugares para se trabalhar e aprender, já que é numa área central, com uma grande equipe qualificada. O que ele fez? Pediu pra ir pra nossa filial, já que seu sonho era trabalhar com o nosso chefão. Mas ele não sabia onde estava se metendo.
Visualizem meu Coordenador: baixinho, magrinho, de óculos, aparelho, crente com cara de crente, 25 anos com cara de 30 e poucos, casado tem alguns meses com a segunda namorada (ambos casaram virgens) e, segundo ele mesmo diz, aficcionado por planilhas do Excel.
Nosso chefão é osso duro de roer, maçon e a gente brinca na empresa que existem dois grupos que alternam o poder na empresa, sendo um deles o da Maçonaria.
Eis que outro dia, quando perguntado qual era sua religião, nosso Coordenador respondeu que não era uma religião como as que estamos habituadas e sim uma organização que visa fazer o bem e acabar com uma instituição diabólica que quer dominar o mundo.
Nossa conclusão do almoço? Ele tinha o sonho de trabalhar com nosso chefão para descobrir outros membros da Maçonaria, matá-los e assumir o poder.
Tadinho do meu Coordenador… Tão ingênuo! Mas que sempre diverte nossos almoços!


Pensamentos Insones

05/06/2009
coração “Não quero causar impacto
Nem tampouco sensação
O que eu digo é muito exato
E o que cabe na canção (…)
Eu não sei viver sem ter carinho
É a minha condição
Eu não sei viver triste e sozinho
É a minha condição…”
Condição (Lulu Santos)

Rolou para um lado e para o outro da cama. Não conseguia dormir, a cabeça não parava de pensar, buscava por respostas para perguntas que não faziam sentido.
Lembrou das promessas, dos sonhos, dos risos e das lágrimas. De algo tão perfeito que agora não existia mais.
Quando tudo aquilo se perdeu? Onde exatamente deixou de fazer sentido? Seria tudo ilusão de sua cabeça, criara aquilo tudo sozinho?
Não, não mesmo! Ele tinha as provas, ele sabia que baixara a guarda e que embarcara naquilo porque tinha certeza de que não estava sozinho.
Logo ele, que sempre fora descrente, que sempre ficava com os dois pés atrás… Abrira a guarda, mergulhara de cabeça e, por um capricho do destino, estava agora naquela situação, sem chão.
Pensou então numa frase ouvida de um personagem de um filme, algo mais ou menos como ‘…a pessoa por quem a gente se apaixona é sempre uma invenção!’ Seria mesmo? Ele achava que sim. Ele criara uma pessoa imaginária tendo por base uma pessoa real. Uma pessoa confusa, jovem demais para que ele esperasse tanto. Por que fora tão descuidado? Por que apaixonara-se?
E era tão fácil saber essa resposta. Com ele faltava-lhe fôlego, o coração saltava, o riso era fácil. Com ele, dias chuvosos era perfeitos para se ficar em casa e dias ensolarados os mais belos da semana. Com ele, um filme era mais divertido e a comida mais gostosa. O abraço era terno e o sexo cúmplice. Com ele, descobriu o significado de realmente amar alguém.
Mas agora tudo eram lembranças e só o tempo diria como ficariam, se é que ficariam. Tinha esperanças ainda de que tudo se acertasse, mas tinha o pé no chão. Aprendera a não esperar demais das pessoas para não se machucar. Se tivesse de ser, tudo bem. Se não, a vida seguiria o seu rumo e ele encontraria o seu.
Seu único medo era que aquilo tudo que estava vívido em sua lembrança com o tempo se apagasse. Conhecendo-se tão bem, sabia que sua tendência seria ir matando esse sentimento procurando os defeitos, maximizando as falhas, polarizando o que não tinha sido bom. No final, restaria uma sombra de lembrança de algo que poderia ter sido e não foi. Uma promessa não cumprida de um sonho não realizado.
Mas ele queria fazer diferente. Aquilo tudo não havia sido em vão. Ele vivera, ele aprendera, ele crescera! E tinha consciência de que conhecera umas das melhores pessoas do mundo, alguém para a vida inteira e por quem ele sempre teria carinho.
Virou para o lado, se arrumou embaixo das cobertas e continuou a avalanche mental até que pegou no sono, sem mais nem menos.
E, olhando-o ali, deitado naquela cama, parecendo tão sereno, ninguém diria que estava despedaçado por dentro.


Cenas Cariocas

01/06/2009

Carioca“Cariocas são bonitos,
Cariocas são bacanas
Cariocas são sacanas,
Ccariocas são dourados
Cariocas são modernos,
Cariocas são espertos
Cariocas não gostam
De dias nublados…”
Cariocas (Adriana Calcanhoto)

Primeiro dia de trabalho no Rio.
Hora do almoço, aniversário de uma nova colega de trabalho.
Pra fazer uma social vamos todos almoçar juntos num restaurante.
Pedidos feitos, o garçom pergunta:

-E pra beber?

Eu já ia dizer:

-Uma coca, por favor!

Mas fui impedido. Todo mundo pediu chop.
Chop, na hora do almoço, durante o expediente.
E fui reparar nas outras mesas. Todo mundo engravatado ou vestido social. Sobre as mesas: chop.
Adoro o Rio de Janeiro!

Terça-feira, 26/04, hora do almoço.
Na dúvida entre o que comer, minha amiga Gi e eu decidimos encarar o KFC.
Nosso trajeto consiste simplesmente em atravessar o largo do Machado, dobrar à direita e seguir em frente, coisa de 3 minutos, no máximo.
Nós dois distraídos, papeando e surge, do nada, um rapaz por volta dos 30 anos na nossa frente, segurando sacos de jujuba.

-Que casal mais lindo! Ela parece com a Glória Pires e você com o Brad Pitt! –ele diz.
-Não precisa forçar a barra pra vender as jujubas, rapaz! –eu digo.
-Que nada, o casal é tão simpático que eu não vou nem vender, vou dar as jujubas para vocês! Ninguém me compra essas porras mesmo!
-Não precisa, não gosto de jujuba. –diz a Gi.

Isso ele segurando a gente na calçada, não nos deixando continuar nosso trajeto.

-As balas são de vocês, faço questão! E não quero dinheiro por elas! Mas agradeceria imensamente se pudessem pagar o meu almoço, pois a luta é dura para pessoas como eu que não consigo vender as jujubas para comprar o almoço.
-Quanto é a jujuba, rapaz? –eu pergunto.
-Não! As jujubas são de vocês, presente meu! Mas se puder me dar R$ 5, eu agradeço.

Então tá então, né?

Estação do Metrô Largo do Machado, horário do almoço.
Eu indo para Botafogo almoçar com uma amiga, mas com um tempinho de sobra, caminhando devagar observando aquela correria habitual do metrô.
Última quinta feira do mês, algumas pessoas distribuindo uma revistinha Metrô Rio, divulgando o trabalho da empresa quando fui abordado por uma mocinha que me deu uma revista e perguntou:

-Você podia me ajudar, heim? Preciso tirar foto entregando a revista pra alguém, mas é uma correria danada, ninguém tem tempo e eu preciso fazer o seu trabalho. Posso tirar a foto contigo?
-Claro, eu tô em horário de almoço, te ajudo.

Ela chama o fotógrafo (bonitinho demais) e tira a foto me entregando a revista. O fotógrafo vira pra ela e diz:

-Você é esperta, só escolhe bonitinhos pra tirar as fotos com você, heim?
-Ah, claro! Por que você acha que minhas fotos saem quase todo mês na revista?

Eu fico rindo da situação surreal, quando o fotógrafo vira pra mim e diz:

-Ela te deu o cartão dela? Claro que não, ela não tem cartão! Mas eu tenho! E sinta-se à vontade para me ligar! Adorei te fotografar!

Eu saio em direção ao embarque rindo daquilo. E com o ego nas alturas, é claro.


Rotina

27/05/2009

porta-1“I should’ve drove all night,
I would’ve run all the lights
I was misunderstood
I stumbled like my words,
Did the best I could
Damn! Misunderstood.
Intentions good!!”
Misunderstood (Bon Jovi)

Levantou-se da cama e ficou admirando o outro corpo nu, adormecido sobre os lençóis de algodão. Colocou os óculos, ajeitou o cabelo e pensou:

-Putaqueopariu! Por que eu sempre me arrependo no dia seguinte de pegar esses jaburus? Maldita cerveja!

Foi até o banheiro, tomou um banho e só desejava que quando voltasse ao quarto ele já não estivesse mais lá. Mas não, as pessoas não são práticas; pelo contrário, são muito óbvias.

-A água estava boa, gostosão? Eu queria tomar um banho antes de sair.
–o outro lhe disse assim retornou ao quarto.
-Não, está gelada! Não tenho chuveiro elétrico. Melhor você tomar um banho em casa. –ele respondeu, já desejando que aquele estranho, cujo nome já nem mais se lembrava, fosse embora o mais rápido possível.

O outro fez uma cara de poucos amigos mas mesmo assim se levantou e veio em sua direção com os braços abertos, provavelmente esperando um abraço, do qual ele se desviou sem pestenajar. Sentiu nojo. As pessoas tinham cada idéia! Ele já havia feito sua boa ação, já havia transado com aquela criatura que à noite lhe parecera interessante, mas que agora, na luz do dia, apenas lhe causava repulsa.
Sem ter muito o que fazer então, o outro se vestiu rapidamente e pegou o caminho da rua, deixando antes, sobre a cômoda, um papel anotado com seu número de telefone.

-Me liga!
o outro disse.
-Sonha com isso!ele pensou.

Fechou a porta, deitou na cama, olhou para a camisinha usada no chão, para as roupas largadas, para o copo d’água ao lado do vidro de comprimidos. Levantou, pegou um, tomou junto com a água; tinha de agir antes da dor de cabeça voltar.
E tudo termina exatamente como começou… Um novo dia, uma nova promessa; o mesmo enredo. Ele não tinha jeito, era sempre assim. Será que um dia aprenderia?

Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 10/05/2009, cujo tema da semana era ‘…e tudo termina exatamente como começou…’.
Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


Pensamentos Avulsos (9)

25/05/2009

nivermi“Por que é que tem de ser assim
Se o meu desejo não tem fim?
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto falantes
Vão poder falar por mim…”
Fico Assim Sem Você
(Adriana Calcanhoto)

Por que é tão fácil brigar com quem a gente mais ama na vida?
Por que deixamos que bobeirinhas idiotas tomem proporções enormes e virem brigas colossais, daquelas que quando você chega no fim, nem sabe o motivo de terem começado a brigar?
Por que a vida não é simples, não vem com manual de instruções?
Não podia ser tudo simples assim: ‘eu gosto de você, você gosta de mim, a gente fica junto e é feliz pra sempre’?
Estou me consumindo de tanto pensar e de não achar respostas.
Acho que Drummond é que estava certo. ‘Eta vida besta, meu Deus!

E amanhã (26/05) é seu aniversário.
24 aninhos de uma vida linda de uma pessoa linda.
E eu te amo!
E te desejo tudo que eu quero pra mim e mais um pouco.
Você merece!
E estou com você. Sempre!


A Nova Colega De Trabalho

20/05/2009

marli“Ela chega com seu andar
Cansado,  desajeitado
Querendo saber se alguém a procurou
A turma logo responde,
Ela fica empolgada
‘Sabe quem perguntou por você?
Ninguém!’”
Pensamento Verde (Molejo)

O problema de se abrir processo seletivo interno na empresa e liberar para pessoas de todas as áreas fazerem é que qualquer cidadão pode passar e assumir uma vaga com a qual não tem nenhuma intimidade.
As outras duas pessoas que assumiram a mesma função que eu em minha nova lotação são um exemplo disso. De nós três, apenas eu já era da área comercial. Um veio da área de suporte de informática e pra me irritar ainda mais tem o mesmo nome que eu (mas ganhou de mim o singelo apelido de Bicheiro, pois ele é idêntico a um bicheiro de novela, bastando para visualizá-lo que você tire o palito de dentes da boca do bicheiro que você imaginou) e a outra deve ter vindo de Marte, pois ela é mais perdida que cego em tiroteio.
Chegando aqui nos deram uma ficha para que preenchêssemos com nossos dados pessoais para que ficasse tudo arquivado (não sei pra quê, uma vez que todos nossos dados se encontram no sistema da empresa). Pegamos a ficha e eram vários os itens, incluindo números de todos os documentos. Como não ando com título de eleitor, carteira profissional, PIS e afins em mãos, fiz o óbvio, entrei na intranet da empresa, fui na página do Recursos Humanos 24 Horas, acessei meus arquivos e fui preenchendo tudo.
Nisso, minha nova colega de trabalho marciana olha pra minha tela e diz:

-Como sou distraída! Eu falei que não tinha meus números de documentos em mãos e me ESQUECI que dá pra pegar isso no sistema. Vou fazer igual você!

Eu viro lentamente a cabeça pro lado e faço um a-ham.
E ela fica lá no computador durante um bom tempo, até que me chama:

-Esse computador é horrível! Não funciona nada nele! Não consigo entrar no RH.
-Vc entrou na intranet e foi pra página do RH 24 Horas?
-Fui.

Vou lá e vejo.
Ela fez exatamente assim para entrar na intranet da empresa:

Iniciar > Executar > SAC0286OutlookRH24HORAS

Eu li o que ela tinha escrito na janela do Executar e fiquei pensando: Que porra é essa?
Então eu fechei tudo que ela tinha feito, abri o explorer, entrei na intranet, fui pra página do RH 24 Horas e pedi pra ela colocar a senha, no que ela virou para mim e disse:

-Que senha? Eles mudam TUDO o tempo todo e querem que a gente saiba das coisas!

Mas tem pelo menos uns 5 anos que eu uso o RH 24 Horas e tenho minha senha, enquanto pra ela mudam TUDO o tempo TODO.
Medo desses meus novos colegas de trabalho, muito medo!


O Último Beijo

18/05/2009

lastkiss“I lifted her head, she looked at me and said;
‘Hold me darling just a little while.’
I held her close I kissed her – our last kiss,
I found the love that I knew I had missed.
Well now she’s gone even though
I hold her tight,
I lost my love, my life that night.”
Last Kiss (Pear Jam)

Se beijaram longamente.
Sabiam que seria o último beijo e queriam aproveitá-lo ao máximo.
E era realmente o beijo perfeito:  um dia de céu azul, sem nenhuma nuvem. Uma tarde de outono, temperatura amena e agradável.  Os pássaros cantando naquela praça que tantos beijos havia presenciado.  E aquela música ao fundo: Last Kiss. Pelo menos esse último beijo deles não era por um motivo tão trágico quanto o da música, mas era também muito doloroso.
Se conheciam desde a infância.  Crescerem juntos, brincavam desde que se entendiam por gente, estudaram na mesma escola.  Na adolescência, descobriram-se.  O primeiro beijo, o primeiro toque, a primeira transa.  De amigos a ficantes, de ficantes a namorados, de namorados a namorados-amigos.
Mas agora eles teriam de se separar.  Era o último momento, o último beijo.
Ele acabara de se formar e havia recebido uma proposta de emprego irrecusável na Espanha.  Seria engenheiro na sede de uma empresa de alimentos.  O pedido de casamento veio logo que soube que havia sido escolhido para o emprego.
Mas ela não aceitou.  Teve medo de largar a família, sua cidade, sua vida. Preferiu abrir mão do seu grande amor.
Ele ficou bravo, gritou, xingou.  Achou que tudo havia sido em vão.  Pensou em desistir de tudo, do sonho, só para ficar com ela.  Mas foi convencido pela família a aceitar a proposta.
Naquela manhã, acordou angustiado.  Seu vôo para Madrid seria no dia seguinte logo cedo e a saudade já era imensa em seu peito.  Ligou pra ela, marcou o encontro.  E estavam ali, na praça, apreciando seus últimos momentos.
E uma pequena lágrima escorreu pela face deles.
De quem foi?  Não saberia dizer.
Talvez fosse dele.  Talvez fosse dela.

Continho achado numa pasta quase esquecida de Meus Documentos.
Espero que sirva de distração.
Boa semana!


Fragmentos do Cotidiano (16)

15/05/2009

mundodalua“Eu vivo sempre no mundo da lua
Tenho alma de artista
Sou um gênio sonhador e romântico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo pro infinito…”
Lindo Balão Azul (Balão Mágico)

O povo na minha antiga sala em Petrópolis fazendo mil planos pra quando eu fosse embora assumir a nova função no Rio.
Gente querendo meu lugar, que tem a melhor posição com o computador estrategicamente virado para a parede; o outro feliz da vida porque iria cobrir as férias da chefe no meu lugar e ganhar um mês de gratificação e por aí vai.
Eu, no auge da minha poesia, falo para todos:

-Estou me sentindo mal, expelido daqui. Vocês são maus comigo! To me sentindo um cocô.

Minha chefe tem uma crise de riso e diz:

-Anotei! Nada como se sentir um cocô pra explicar claramente como é se sentindo expelido de um lugar!

Back up do meu computador antigo no trabalho.
Mil pastas, fotos e alguns arquivos que eu nem lembrava mais que estavam lá.
Meu colega doido pra eu sair logo pra ele fazer a mudança de mesa (sim, minha mesa era a melhor, meu computador também, ah, desculpa, eu sou foda e tenho contatos! Rs) e me rodeando.
Acho uma pasta de fotos que eu não me lembrava que estavam lá, quando ele olha pra tela e diz:

-Imagens Proibidas! Gostei do nome da pasta! Tem o que aí? Todas as fotos das últimas playboys? Se quiser deixar no computador pra eu acessar eu nem vou ligar.

E eu só penso para comigo:

-Ah, se ele soubesse!

Hora da despedida do antigo emprego, abraços, choro, delicioso lanche, refrigerante, coisas do tipo.
E mil recomendações, claro!
Entre elas, a seguinte:

-Autor, se controla! Vê se tenta não ser autista pelo menos por um mês. A gente aqui está acostumado com você e suas viagens interplanetárias durante o expediente, mas lá não! O povo vai se assustar quando falar com você e quando meia hora depois se darem conta que você estava em outro planeta!