Improbabilidades

06/10/2011

Pensando sobre a vida e em como algumas coisas tão improváveis algumas vezes acontecem e você faz cara de caneca pro universo, agradecendo por tudo aquilo que, às vezes, parece conspirar a seu favor. Porque aquilo que você nem poderia pensar, algumas vezes, passa a fazer parte da sua rotina, te molda e vira parte de você.

Em minha vida de garoto nascido no interior, em que achava que o mundo era uma cidade de 60 mil habitantes, meu sonho sempre foi sair dali e desbravar a imensidão que eu via pela televisão. E, apesar de improvável – afinal, sou filho de pais religiosos que achavam o máximo as grandes famílias formadas por filhos crescendo, casando-se, tendo filhos e morando próximos -, eu saí, pouco a pouco, daquele lugar em que não me sentia completo. Gradualmente fui me afastando, conquistando novos horizontes até chegar na cidade que é hoje é minha e que amo como um nativo. Além disso, viajei o mundo, conheci pessoas e culturas, experimentei sabores e cores. E ainda hoje, quando volto para Smallville, ouço: mas como é metido, precisava mesmo sair daqui? Sim, precisava. NECESSITAVA.

Da mesma forma, apesar de reclamar, consquistei um emprego público improvável e que me permite viver relativamente bem. Quem pensava que uma inscrição feita no impulso para uma prova para a qual não estudei e fui fazer sem nenhum preparo seria a responsável por fazer eu me movimentar e não fincar raízes indesejadas?

Assim como o vestibular para a federal para o qual eu sequer li uma linha, mas passei e me graduei e me abriu portas interessantes. Tanto a faculdade como o emprego moldaram o Autor que sou hoje, com os amigos que tenho e com as escolhas que fiz.

Enfim, a cereja do bolo: achar um grande amor pela internet. Ah, fala sério, isso é ilusão. Digo mais: no bate papo da UOL. Mas foi lá, de um lugar em que eu não esperava NADA além de uma fast foda que conheci o homem que hoje faz parte da minha vida, que divide seus sonhos e planos e que me faz sonhar ainda mais ao seu lado. O homem que escolhi para ser meu e que me escolheu. Improvável, eu sei. Mas que pra mim se mostrou possível.

E assim, virando as probabilidades pelo avesso, vamos sonhando, plantando e colhendo sonhos possíveis e improváveis. Vamos vivendo!

OBS: Sumido, eu sei. Mas a vida tem me presenteado com tantas possibilidades e afazeres que ando sem tempo e inspiração para escrever aqui. Nesse meio tempo, preparei dois “filhos” que em breve estarão dando as caras por aí, livros de que sou autor e co-autor e que me fazem muito feliz desde já. E agora, como sou merecedor, vou sumir de novo. Estou pelo mundo, meus caros, em merecidas férias no Velho Continente. De novo.

See ya! Carpe Diem!

Si es cuestión de confesar, nunca duermo antes de diez
Ni me baño los domingos
La verdad es que también lloro una vez al mes
sobre todo cuando hay frío
Conmigo nada es fácil, ya debes saber
Me conoces bien.
Inevitable (Shakira)


3.0

26/07/2011

Nunca fui de me importar muito com essa coisa de aniversário. Na minha família, dia de aniversário sempre foi considerado um dia comum, já que por motivos religiosos a data não era comemorada. Apesar dos traumas infantis de depois dos nove anos nunca mais ter tido uma festa de aniversário e muito menos poder ter ido em uma, acabei me acostumando com o fato. Só fui voltar a frequentar aniversários e até mesmo a comemorar os meus quando atingi a minha independência financeira.

Por isso, apesar de gostar dos mimos que a data sempre oferece, eu nunca fico ansioso por ela, inclusive porque tenho lá as minhas crises com a idade. Pode parecer idiotice, mas crise a gente não explica, resolve na análise (que eu não faço). Esse ano em específico o negócio era ainda mais preocupante: sair do vinte e entrar nos trinta não me era nada convidativo.

Mas o dia chegou e foi mais do que agradável. Nenhuma grande comemoração, mas algumas pequenas e especiais, ao lado de algumas das pessoas que eu mais amo, os meus amigos. Isso sem contar o carinho e a preocupação de todos que, mesmo distantes, estiveram próximos, seja por meio de uma mensagem no Facebook ou de um email bonitinho; tive até post dedicado em blog. Carinho, a gente vê por aqui.

Os 29 se foram, os 30 chegaram e nada efetivamente mudou. A vida segue e a gente vai levando-a, aos trancos e barrancos, eventualmente comemorando uma nova conquista e esperando por novas e impressionantes surpresas.

Aos 30 anos eu tenho um emprego estável, amigos sensacionais, um namorado maravilhoso e uma vida inteira pela frente. Quem precisa de mais?

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final do mês de julho*…

Amanhã é 23 (Kid Abelha) 

*de agosto, eu sei, mas pode mudar a letra pra música fazer um pouco mais de sentido pra gente mesmo, né?

Inverno

19/05/2011

Gosto do inverno. Apesar de ser uma pessoa solar, de adorar os dias azuis e iluminados do Rio de Janeiro, de apreciar um delicioso e refrescante banho de mar no verão, vejo uma poesia tremenda nos dias cinzas de inverno.

Nasci no interior do Rio, numa cidade com as estações do ano bem definidas. Na primavera havia flores por todos os lados, no verão fazia calor (muito), no outono a temperatura caia um pouco e o chão se tingia de folhas, enquanto no inverno tínhamos frio de verdade, com direito a neblina pela manhã e fumacinha saindo da boca enquanto falávamos.

Mais tarde, já adulto e morando e trabalhando em Petrópolis, estreitei minha relação com o frio, marca da cidade. Nunca gostei dos dias chuvosos petropolitanos, mas o cinza e o frio, quase onipresentes em todo o canto, me fascinavam. Dormir enroscado num edredon, poder usar casaco de couro, sobretudo e cachecol sem parecer um idiota e ainda se achar chique. Petrópolis faz isso por você!

Em janeiro, em minhas férias pela Europa, senti frio DE VERDADE pela primeira vez na vida. Em Paris peguei -17º C e vi até neve (ok, derretendo nos gramados da EuroDisney, mas vi). Um frio doído, daquele de congelar as pontas dos dedos e das orelhas; de ficar sofrendo por antecipação ao pensar que ia ter que ficar pelado pra tomar banho. Em Londres, depois de uma semana congelando em Paris, eu já estava acostumado com a temperatura (doente, de garganta inflamada), mas não preparado para a chuva constante e fininha que caía sobre a cidade. Foi ótimo, mas prometi a mim mesmo que nunca mais volto na Europa no auge do inverno.

Dito isso, acho muito engraçado como os cariocas de verdade, os nascidos e criados na cidade, encaram o inverno. Dia desses, eu caminhando por Copacabana a caminho do trabalho, cruzei com uma menina de botas e cachecol. Quando comecei a pensar “Que louca!” vi um rapaz com um casaco de couro e mais algumas mulheres de sobretudo e cachecol. Olhei para o termômetro da rua e marcava 22º C. Eu ri, mas dá pra entender um pouco os moradores da cidade, principalmente ao se lembrar de uma piadinha já conhecida: “Ano passado, no Rio de Janeiro, o inverno caiu numa quinta-feira!”.

Por isso, agora que sou um pseudo-carioca, vibro com dias mais friozinhos em que posso tirar do armário meus casacos mais quentes, me sentir um pouco mais bem vestido e tomar litros de café e chocolate quente sem achar que vou morrer de tanto suar.

E posso rir do povo na rua, que parece prestes a congelar, usando cachecóis, casacos pesados e sobretudos, muitas vezes até luvas. E tremendo. Aos 18º C.

No dia em que fui mais feliz eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei, caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial…
Inverno (Adriana Calcanhoto)


Friday Night Lights

28/05/2010

É sexta-feira à noite. Da janela do meu quarto vejo uma lua majestosa, linda, brilhando solitária no céu do Rio de Janeiro. De um lado, Santa Teresa, do outro, prédios e mais prédios. Aqui, apenas eu.

Apago as luzes do meu quarto, coloco músicas diversas a tocar aleatoriamente aqui no meu player e digito. Pensativo, solitário, me sentindo bem.

Ando inquisidor (de mim mesmo) demais, contemplativo, pensativo. Hoje, com as luzes dessa sexta-feira à noite invadindo meu quarto, vejo que o silêncio do meu quarto é bom, que as vozes na minha cabeça são conselheiras, que o mundo pulsa e eu pulso junto. Apesar da música, quase posso ouvir o tum tum tum ininterrupto do meu coração. Coisa boa estar vivo, não é mesmo?

Há muito não tirava uma sexta-feira à noite pra mim. Só pra mim. Pra mais ninguém. Gosto da minha companhia, sempre gostei. Penso na época que morava com meus pais e que meu quarto era o meu mundo e eu era o único rei ali. Hoje, sinto falta dos meus pais, da certeza de bastar sair do meu espaço para encontrá-los sentados na sala ou papeando na cozinha. Entretanto, vejo que essa saudade é boa, porque eles não estão aqui, mas que eu cresci e evoluí. Mas que basta a saudade chegar que posso correr para a casa deles e eles estarão lá para mim.

Lá fora, a vida acontece. Aqui dentro, eu penso. E, olhando pra essa tela fria de computador, sorrio. Porque hoje a sexta é minha e eu sou meu. Mas sei que numa segunda, quarta ou quem sabe, outra sexta, você aí do outro lado, lerá isso. E saiba que você não está sozinho. Eu aqui. Você aí. O mundo inteiro, cada um em seu canto. É a vida, pessoa! E é bonita, é bonita e é bonita…

“Mas eu preciso de outros sapatos,
De outras roupas, outros temperos
Para formar minhas ideias
E meus sentimentos.
Eu sou a soma de tudo que vejo
E minha casa é um espelho
Onde à noite eu me deito
E sonho com as coisas mais loucas
Sem saber porque…”

Meu Reino (Biquini Cavadão)