Smallville

Eu sou do interior do estado do RJ. Sul do estado, quase na divisa com MG. Imagine uma cidade pequena, com uma praça grande, igreja e prefeitura, onde todo mundo conhece todo mundo e eu nunca tive identidade, sempre fui o filho do meu pai. Lembro que desde sempre a minha intenção era sair de Smallville, me mudar, ganhar o mundo.

Meus pais fazem o estilo sonhadores, daqueles que gostariam de viver num comercial de margarina e nunca enxergaram os problemas que tinham dentro de casa. Tapar os olhos sempre foi um mantra lá em casa. Sabe aquela situação em que a coisa está explícita, mas não se pode tocar no assunto? É assim desde sempre e não estou falando especificamente sobre a minha sexualidade.

O tempo passou e, com ele, meu plano de sair da cidade deu certo. Da cidade pequena pra uma um pouco maior, na serra; e da serra pro Rio. Hoje vivo aqui, apaixonado desde sempre pelo carioca way of life, sem me imaginar vivendo em algum outro lugar. Mas meus pais continuam lá, em Smallville, onde todo mundo conhece todo mundo. E, eventualmente, eu me despenco até lá, para visitá-los.

Acho incrível o sentimento de não adequação que a cidade exerce em mim. Eu morro de saudade dos meus pais, mas basta eu botar os pés lá, vê-los por cinco minutos para desejar estar de volta ao Rio. Lá eu me sinto mentiroso, fake, desajustado. Pra completar, quase não tenho amigos e os que ainda restaram lá, tem suas vidas e ocupações.

Nesse fim de semana eu estive lá. Dessa vez, a sensação foi ainda mais forte. O frio intenso e a falta do que fazer me mantiveram trancado em casa, comendo e dormindo. Não que tenha sido ruim, pois mimo é sempre bom, mas apenas atestou o que eu sempre soube: lá não é meu lugar.

Pra completar, a saudade do namorado era avassaladora. Nesse tempo que estamos juntos criamos hábitos tão nossos, referências que fazem todo o sentido pra nós e que devem ser totalmente nonsense  para os de fora. Tudo que eu via me remetia a ele.

No domingo à noite, já chegando ao Rio, eu chorei no ônibus. De felicidade, por aqui eu poder ser quem eu sou. De saber que tenho alguém que gosta de mim, do jeito exato que sou, sem máscaras. De ter amigos que me acolhem e me fazem bem. De pensar que aquele garoto que sempre quis sair de Smallville e ganhar o mundo conseguiu isso, de forma que nem ele um dia imaginou ser possível.

Why is everybody so serious?
Acting so damn mysterious
You got your shades on your eyes
And your heels so high
That you can’t even have a good time
Price Tag (Xenia) 
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19 Responses to Smallville

  1. Edu disse:

    Cara, sei exatamente como é esse sentimento de “viajar sem o marido”. Detesto! Mas que bom que pode voltar pra sua casa, sempre.

    Mas um mimo sempre é bom… 🙂

    Rio este fds? Acho que ainda não, orçamento apertado… Mas este ano, com certeza absoluta!!

  2. David® disse:

    eu tb sou de outra cidade mas moro há mtos anos em SP. Só volto a minha cidade por causa da família. O estranho é só qdo estou voltando pra SP q tenho a sensação de voltar pra casa.
    Vai entender.
    Abração!

  3. Fernanda disse:

    Minha família é de Miracema. Eu não vou lá a anos. Não tenho paciência.
    Eu sou grande, de cidade grande. Cidade pequena é pequena demais para os meus sonhos!
    É bem por aí, aqui no Rio eu posso ser eu, sem medo! E é isso que me faz feliz!
    Até penso em conquistar coisas lá fora, mas esse medo de perder minha identidade é foda!

  4. Foxx disse:

    encontrar seu lugar sempre nos faz bem né?
    eu ainda não tive esse prazer.

  5. J.M. disse:

    Eu estou numa situação que parece um pouco com o que você viveu. Sai da cidadezinha e fui para metrópole. Hoje, vivendo em SP, tive que retornar a cidadezinha para cuidar de pai doente…e tudo o mais. E fica aquela sensação estranha, de não adequação. Enfim, ás vezes estar longe é o melhor.

  6. Latinha disse:

    Acho que cada coisa tem um tempo, tem sua hora… e “navegar é preciso!”
    É bom achar um lugar onde nos sentimos bem, é melhor ainda encontrar outros elos da nossa corrente… E o mais bacana, é legal saber que mesmo sem estar lá, você pode sempre estar com tua família e eles contigo!

    Abração para você! E sabe que lendo, me lembrei de um poema do Fernando Pessoa…

    “Não se acostume com o que não o faz feliz,
    revolte-se quando julgar necessário.
    Alague seu coração de esperanças,
    mas não deixe que ele se afogue nelas.
    Se achar que precisa voltar, volte!
    Se perceber que precisa seguir, siga!
    Se estiver tudo errado, comece novamente.
    Se estiver tudo certo, continue… (Fernando Pessoa)

  7. Dêco disse:

    Rapaz, eu sei muito bem como vc se sente em relação a cidade natal. sinto o mesmo pela minha. Ter que ir para lá drena uma força que eu não tenho. Whatever! Que bom que você tem o seu lar onde podes ser quem és e tem pessoas que te amam dessa forma.
    Quanto a amigos heteros, melhor conservá-los heteros.
    beijos

  8. eu ainda me surpreendo lendo esse tipo de confissão.

    talvez essa tenha sido a primeira vez que eu senti que seu blog fazia jus ao nome.

    não entendo bem, mas gosto mesmo de não entender.

  9. Ro Fers disse:

    Meio foda, esse lance, complicado afinal familia é o alicerce e jamais temos que ser ingratos a eles, pois deram o melhor deles…
    Porém entendo seu lado, complicado ter que viver de forma artificial perante sua familia, sei mto bem o que é isso, pois vivo assim constantemente por morar com eles…
    Apesar de que evito contato com familiares como tios, primos enfim, porque irão questionar se casei, se estou namorando, enfim….
    Familia só é bom em porta retratos, exceto pai, mae e irmãos…rs
    Forte abraço!

  10. encontrar o amor e o lugar é quase encontrar a perfeição
    só falta a mega sena

    beijos meu amigo querido que eu morro de saudades!

  11. DO disse:

    Não passei ainda por isto,mas acho que sei bem o que vc quis dizer,Autor. Alias,a sua franqueza neste post deve levar muitos a se identificar com estas situações.
    Por mais que sejamos amados dentro de casa,com a familia,a gente nunca se acha inteiramente “EU”. E isso só acontece mesmo qdo se tema coragem que vc teve de fazer a sua própria vida.
    Gostei muito do post !
    abração!

  12. Daniel Braga disse:

    Ah querido! Que bom que você conseguiu sua ‘libertação’ de Smallville, aliás adorei o nome que você parodiou… Haha.
    Eu ainda estou lutando pra encontrar meu lugar no mundo, nasci e cresci no Rio de Janeiro, sou Carioca da gema, mas sinto que preciso ganhar o mundo… é uma necessidade quase fisiológica pra mim. Vou me espelhar em ti pra conseguir isso.

    -> Até a próxima e obrigado pelo seu comentário no meu Mural dos Sonhos, se Deus quiser eu vou realizar a todos eles.

    *DB*

  13. Fred disse:

    Fazer o quê, né? Afinal, tu me conhece de outras encarnações blogueiras… hehehe! Gosto quando tu apareces, sabia? Hugz!

  14. Su disse:

    Gostei desse texto. Soa muito sincero. 🙂

  15. in.Constante disse:

    Soa muito sincero mesmo.

    E acho que todos que saem do pequeno mundo onde nasceram e se encontram em cidades grandes sentem algo muito parecido.

    Engraçado que tinha discutido isto hoje com uma amiga e decidido fazer um post sobre. Daí me deparo com este belo texto. Parabéns!!!

    Ps: não consigo imaginar vc chorando. Se penso em vc, vc está rindo. Sempre. 😉

  16. Lobo disse:

    Engraçado, eu tenho vontade de voltar pra minha smallville. Só faltava ter campo de trabalho pra mim lá, e pais mais tolerantes, e voualá XD.

  17. Cara Comum disse:

    Você descreveu minha família… Pode falar: vc anda me investigando, né??? Hahahahahaha

    Abraços!!

  18. Engraçado como só mudam os lugares, mas como as história são parecidas. E quantas Smallvilles existem por aí. Tenho o mesmo anseio, a mesma ansiedade de cair fora da minha cidade. Mais ou menos do jeito que você falou “não é o meu lugar”. Mas a família comercial de margarina continua lá, sempre. E, talvez, hoje seja a única coisa que ainda me prende aqui.

  19. Paulo disse:

    Fique feliz, meu querido… muitas pessoas passam toda a sua vida se sentindo deslocados nos seus lugares, sem nunca mexer um dedo para mudar isso. Vai mesmo atrás da sua felicidade, não importa onde ela esteja!

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