Lamúrias Profissionais

Eu quase não falo sobre o meu trabalho. Por um motivo simples: eu não gosto do que faço. Pra ser mais exato, eu acho que não gosto é de trabalhar. Mas, até aí, estou igual a todo mundo. Porque simplesmente não acredito que alguém realmente trabalhe por prazer. Lorota! Viajar pelo mundo, fazer qualquer outra coisa, tudo é mais interessante do que trabalhar.

Mas como não nasci rico e, apesar de tentar, eu não ganho na Mega-Sena, tenho de acordar todo dia, sair do meu lar (ou do lar do namorado) e enfrentar a jornada de trabalho. E faço no automático, porque não fico reclamando muito da vida. Apesar de não ser o melhor emprego do mundo, ganho relativamente bem (tô comparando com a maioria, às vezes fico deprimido ao comparar meu salário com alguns outros) e tenho uma disponibilidade (e estabilidade) que me são confortáveis. Pra compensar, arranjo prazer em outras formas que, felizmente, têm me rendido um ou outro centavo por fora, vez ou outra.

Entretanto, não sou sempre Pollyana e tenho meus arroubos de raiva e de me questionar sobre o que quero pra mim. De uns tempos pra cá tenho ouvido com uma certa frequência que devo voltar a estudar e encarar uma nova graduação, dessa vez em jornalismo. E cadê coragem? Só de pensar em estudar mais quatro anos pra conseguir um diploma eu broxo. Já encarei isso uma vez, já estou terminando a pós-graduação e me recuso a pagar para fazer uma outra particular. Da primeira vez fiz federal, estou pagando a pós a contragosto e, desculpe-me quem paga, mas não me vejo fazendo isso. Como encarar um vestibular para fazer outra faculdade pública (e aguentar todo o drama de greves e afins da primeira) não está nos planos, vamos empurrando a vida com a barriga.

E evitando reclamar, porque não tenho muito saco pra esse tipo de lamento. Sou um profissional dedicado, procuro fazer meu trabalho direitinho e, quase sempre, ganho até elogios. Mas depois das 17h eu esqueço completamente para quem trabalho e vou tocar minha vida, que é quando eu sou mais feliz. Passear por aí, ir ao cinema, comer num bom restaurante, compartilhar da companhia do melhor namorado, tudo isso me apraz. Mas para continuar usufruindo de tudo isso, lá vou eu, todo dia, acordando e trabalhando no automático, para ter como pagar as contas.

No final de tudo, sei é que sou bem acomodado. E isso, às vezes, me irrita um pouco. Mas penso em tanta gente que rala pra caralho pra ganhar salários vergonhosos, que me sinto até meio mal por reclamar da minha (quase boa) vida.

Terapia. Será que resolve?

Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não;
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Cotidiano (Chico Buarque)

OBS: Sei que os amigos próximos hão de sacanear a escolha da música. Eu não como feijão, tenho verdadeira ânsia só de imaginar. Mas, gosto da música.

Anúncios

14 Responses to Lamúrias Profissionais

  1. Foxx disse:

    desculpa falar apenas da primeira frase do seu blog…

    mas pq vc não fala no blog de algo q vc não gosta?
    acho q é essa a grande diferença do nossos modos de blogar
    vc sempre fala de coisas boas, de como está feliz e do que gosta; eu tenho tendência de escrever sobre qndo estou mal, infeliz e daquilo q me incomoda, são pulsões diferentes para escrever. Freud explica?

    • Autor disse:

      Nada, na verdade eu falo sim do que não gosto.
      Não costumo escrever sobre meu trabalho porque normalmente não penso nele. Quando pensei, como hoje, escrevi.
      Falo de coisas boas e felizes pq essa é a forma como vejo a vida e isso que me importa. Se escrevesse todos os dias posts depressivos e de lamento, eu não teria saco para mim.
      Não tenho auto-piedade e não é porque sou um cara normalmente feliz. Pelo contrário. Algumas pessoas sabem que sei ser mal humorado e, por vezes, bem malvadinho. Só não venho aqui, toda vez que escrevo, para me colocar como um injustiçado divino. Normalmente, quando algo me incomoda, eu supero.
      Sobre as pulsões diferentes para escrever, pode ser. Só que já vi pessoas escreverem sobre a dor de forma bem mais interessante e menos auto-piedosas do que você. Caio Fernando de Abreu que o diga.
      Não é que não goste do que escreva e sim a forma como parece se colocar como vítima das situações. Só é vítima quem se coloca como tal.
      Esclareci?
      E Freud talvez não explique, mas um terapeuta poderia muito ajudar.

  2. Priscila disse:

    Cara esse texto tem absolutametne TUDO haver cmg, parece q sua vida é minha vida, a única diferença é que ainda sou estagiária! Mas faço federal e meu sonho é fazer Jornalismo…

  3. Su disse:

    sabe o que acontece enquanto escolhe não pensar no Jornalismo? Perde-se tempo. Falo mesmo!!! :p

  4. Gente, você disse tudo aquilo que eu penso… sintonia entre a gente é fodastica néam?

    Beijos vitaminados!

  5. Lobo disse:

    Eu sei é que não posso parar, senão nunca mais vou ter gás pra continuar nessa vida de estudo. E vou aproveitando que dei sorte de cair numa profissão que não me mata de desgosto XD

  6. Cara Comum disse:

    Ah… pois é… Não que a gente ame trabalhar, mas é preciso sentir algum gosto no que se faz, senão a gente pira, não??

    Sobre fazer Jornalismo, eu tenho um histórico que me faz ter uma certa aversão a jornalistas (estória longa, depois eu conto…), então costumo a brincar que é uma profissão que nem precisa de diploma… rs

    Tá, mas falando sério: eu sei que é bom estudar pra ser um bom jornalista e se esse é o seu sonho crie coragem e encare-o, homem!! O tempo dos estudos passa rápido e o diploma fica…

    Abraços!!

  7. Terapia só seria indicação se vc não conseguisse amar ou trabalhar…nem é o caso…acho melhor encher a cara

  8. in.Constante disse:

    Não. Não acho que terapia funcione…

    E me vi tanto nesse post… principalmente no quesito “não me vejo pagando faculdade particular”. Acho que eu seria incapaz disso… principalmente pq tbm não teria saco pra ficar 4 anos, de segunda a quinta/sexta com horários definidos.

    Agora, meu amado amigo, não é só outra graduação uma solução pros seus problemas (vixe… lembrei de “organizações tabajara…). Até pq vc abandonaria o atual emprego pra virar jornalista? Afinal ter mais um emprego seria complicado. Ou viraria jornalista e faria outro concurso?

    Pra fazer outro concurso, mais prático estudar pro cargo atual… Eu conheço algumas empresas bem legais de se trabalhar com sua graduação, quer uma dica? =D

    Sem contar q é mais fácil ter concurso pro atual que pra jornalista =P

    Enfim, terapia não resolve, mas essas fases ruins são esporádicas… daqui a pouco passa, daqui a pouco volta, enfim… mas se tá mesmo tão chato, é pensar mesmo em outras possibilidades.

    E sobre sua novidade, eu AMEI ser o primeiro a saber hahahah. E fiquei/tô feliz pacaráio! Lembrei de nossa conversa há um bom tempo lá no outback, quando tudo era tão indefinido ainda. Mto feliz com sua felicidade.

    Um grande beijo, pros dois!

  9. eu pularia pro próximo assunto. odeio falar de trabalho e pior ainda quando envolve faculdade.

    não tô no clima.

    preciso do mesmo terapeuta que você, me indica?

  10. Daniel Braga disse:

    Ah, querido. Não te critico por reclamar da vida, afinal, nós sempre almejamos mais, e acho isso bom. Pior se fosse o contrário né?
    Mas acho que não devemos nunca deixar de olhar para os lados e ver que existem pessoas piores que nós.

    ~> Enfim, espero que você se decida. Se fosse eu, estudaria mais, até porque adoro estudar, SEMPRE.

    *DB*

  11. Daniel Braga disse:

    Aiiiiin, raiva. Eu escrevi um comentário enorme e o blog “sumiu com ele”, fala sério. Mas saiba que li. Aff….

  12. Caju disse:

    Eu sou jornalista, amo o que faço, mas a recompensa (ou seja, o salário) não é das melhores. Dizem que há algo fundamental em ser jornalista, pena que poucos entendem isso. Meu emprego é ótimo, ganho mais que a maioria dos meus amigos – exceto da filha do político influente, claro, que conseguiu um emprego beeeem melhor – mas acho que estou perdendo o tesão. Às vezes me sinto mal agradecido pelo mesmo motivo que vc. Mas tb me enfureço quando lembro que tem gente muito mais burra do que eu, que trabalha muito menos e que ganha o dobro ou mais.

    Ah, e se for por escrever, vc vai ser um ótimo jornalista! hehe

    Bjs!

  13. neutron disse:

    É exatamente assim que eu me sinto em relação ao meu trabalho. O horário que eu tenho conseguido fazer, o salário (apesar de não ganhar rios de dinheiro também)…

    Daí quando surge alguma reclamação na minha cabeça, eu tento deixar para lá. Até porque a gente sempre acha algo do que reclamar, né?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: