Do Que Pode ou Não Ser Verdade

O calor insuportável, o suor escorrendo, o corpo mole, a preguiça. Na verdade, apenas mais uma sexta feira de fevereiro no Rio de Janeiro. Em casa, sentado de cueca na frente do computador, pensava que dali a pouco precisava se encontrar com os amigos pela Lapa, o point definitivo daquele grupo tão díspar e, ao mesmo tempo, tão homogêneo. Farinha do mesmo saco, ele pensava. Amigos, ele tinha certeza.

Atrasado, depois de duas duchas, teve sua atenção despertada pela tela do computador. Um nick conhecido e uma pequena conversa seguida de um sutil convite que saberia não ser aceito, seguido de um adeus e de um ‘se decidir ir, me liga, tô saindo!’. Fecha o computador e sai, antes mesmo de qualquer resposta.

No elevador, o susto. O telefone tocando, o convite aceito, as mãos suadas e todo o desânimo indo embora como que por encanto.

E foi assim que o outro, tímido, quieto, improvável, foi apresentado ao grupo de amigos. E amigos, quase sempre, são péssimos. Amigos praticam bullying com ficantes e peguetes dos membros do bando, amigos soltam as declarações mais polêmicas (sobre você) na frente de novatos, amigos testam até o limite aqueles que ousam adentrar aquela bolha tão específica, aquele círculo já traçado. Todos os amigos são assim? Não saberia explicar, afinal, ele não conhecia os amigos de todo mundo. Mas os amigos dele – os melhores! – eram todos assim.

Mas, apesar dos pesares, a noite foi mais do que agradável. Intimidado, o jovem rapaz se saiu super bem, foi acolhido, ficou horas deixando-se conhecer e sendo surpreendido pelo amigo mais inquisidor, mais resistente. Mas a noite, longa noite, avançava e ele (o personagem principal, não o novato) foi relaxando.

Por fim, apenas ele, o novato e o amigo inquisidor sentados numa mesa do Bar das Quengas. Nome propício, pensariam alguns. Nome infame, bradariam outros. Um nome, apenas um nome, nem mesmo esboçariam tantos outros.

E uma eletricidade no ar. Arrepios ao encarar os olhos, pau duro apenas num esbarrão de pernas. Tesão, apenas ele.

O amigo, o bom amigo, o melhor amigo, o mais sutil dos amigos, é sagaz e discreto: “É, tenho de ir. AGORA!”

Os dois ali, sentados, sem ter o que dizer, apenas a olharem-se, desejando-se.

E a noite, tão longa noite, chega ao fim. Porque, ao acordar, naquela cama que não era a sua e nem dele, com ele ao seu lado, ele só pensaria: Sonho? Realidade? Ou apenas a vida, sempre ela, a lhe pregar uma peça?

Não saberia a resposta. Ninguém saberia. Porque ele pode ou não existir e esse texto, letras e sinais gramaticais, acaba aqui. Já a vida, a real ou imaginada vai seguindo seu fluxo, sem se preocupar com certo e errado, com pontos ou vírgulas, interrogações ou exclamações.

E, pra que um ponto final se eu posso usar reticências?

(…)

“Teus sinais me confundem da cabeça aos pés
Mas por dentro eu te devoro
Teu olhar não me diz exato que tu és
Mesmo assim eu te devoro…”
Te Devoro (Djavan)

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15 Responses to Do Que Pode ou Não Ser Verdade

  1. ok, eu me perdi. eu tava acostumado com aquela abordagem jornalística aqui no blog, informações. esse post tá cheio de entrelinhas ou é impressão minha?

    relendo…

    afinal, quem pegou o novato? o amigo inquisidor ou o personagem principal? (o lerdo)

    ps: nem todos os amigos são assim.

  2. in.Constante disse:

    Meu amigo,

    Como eu sei que este comentário necessita de aprovação, não me responsabilizo caso ele seja publicado!

    1) Que bom que o novato é chamado de novato… Pq aí vc poderá repetir o post em breve e nem terá de mudar nomes… =D

    2) Adorei a construção textual;

    3) Lamento ter perdido a Inquisição… Deve ser engraçado ver o inquisidor em ação (com terceiros, né? Afinal na pele eu já senti hahaha… E até ouso achar que o segredo é não levá-lo muito a sério);

    4) Apesar do item 1, torço pra em breve eu estar errado… Quero ver vc apaixonadinho =D

    Ah, seu bullying no sábado não funcionou, tá? =D

    Vc não conseguiu se passar por vilão de novela!

    Um xêro!

  3. Su disse:

    Humm…queria muito que vc fosse um ficcionista bom nesse nível…hahah
    Esse é qual? Só ficar uns dias sem te ver e já estou desatualizada!

  4. Texto bem escrito é assim, confunde verdade e ficção, o certo com o incerto e ainda assim você consegue reconhecer entonações em frases que não pertencem nem mesmo àquele que as escreveu.

  5. Su disse:

    Acabei de bater na sua porta pra te dar bombom e vc nem me atende…
    :p

  6. eu adoro reticências
    e sim, todos os amigos são assim! os seus. os meus. os nossos. e os vossos!

  7. Ro Fers disse:

    Tirando o calor infernal que detona qualquer um, do resto tu aproveitou bem…
    Forte abraço

  8. Rafael disse:

    Pode crer! Amigos praticam bullyng, na maioria das vezes com nós msms! rsrs

  9. Foxx disse:

    “E amigos, quase sempre, são péssimos. Amigos praticam bullying com ficantes e peguetes dos membros do bando, amigos soltam as declarações mais polêmicas (sobre você) na frente de novatos, amigos testam até o limite aqueles que ousam adentrar aquela bolha tão específica, aquele círculo já traçado. Todos os amigos são assim?”

    mas não mesmo! Deus me livre! nem saberia conviver num ambiente assim. Valei-me!

  10. Fred disse:

    A verdade a gente inventa… hehehe!
    Adorei o teXXXto!!!!
    Hugzz!

  11. Lobo disse:

    Porque reticências são crueis pra quem fica do outro lado dos três pontos? XD

    Nem todos os amigos são assim… mas quase todos são XD. Especialmente os mais ciumentos e os mais possessivos XD

  12. Adso disse:

    Vontade imensa de fazer parte dessa bolha…

    Quando eu crescer, quero aprender a escrever assim,
    Não revela, nem esconde, apenas diz.

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