Sobre Perder e Viver

É irônico como a vida faz certas coisas. De repente, você é obrigado a confrontrar situações para as quais não estava preparado e, sem ter muito o que pensar, apenas aceitar que aquilo aconteceu.

Há pouco mais de um ano meu avô, pai de meu pai, morreu. Aconteceu, mas a vida seguiu. Alguns meses depois, minha avó, mãe da minha mãe, também faleceu. Essa avó era o que poderia definir como uma típica avó: cabelos brancos, velhinha, doce. Mas, adoentada, sua morte não nos pegou de surpresa e não foi tão impactante (se é que perder alguém querido pode não ser impactante). Duas perdas num curto espaço de tempo, para as quais eu nunca havia me preparado. Meu outro avô, pai de minha mãe, havia falecido quando eu era bem pequeno e, sinceramente, minhas recordações dele são muito reduzidas.

Restou minha avó, mãe do meu pai. Ela, ao contrário da outra, fugia totalmente do esteriótipo que você possa fazer mentalmente de uma avó. Boca suja, divertida, ativa, era, sem sombra de dúvidas, a pessoa que mais me admirava no mundo. Sou seu neto mais velho, o primogênito de seu filho primogênito. Sim, fui muito mimado por aquela velha maluca que eu tanto amo.

E o engraçado é que eu nunca imaginei o mundo sem a sua presença. Sei lá, com meus outros avós eu tinha outra visão, sabia que iam acabar nos deixando uma hora ou outra, mas com ela eu não conseguia visualizar isso. Até mesmo quando ela brincava dizendo que quando morresse não ia querer chororô desmedido nem muitas velas, que fazia questão que nos lembrássemos dela viva e cheia de energia, eu ria e pensava: ‘isso não vai acontecer tão cedo.’

Mas eis a ironia dessa vida, que, vez por outra, faz questão de nos lembrar quão frágeis e finitos somos. Depois de passar com sucesso por uma cirurgia que, aparentemente, era bem simples, na segunda feira, na madrugada de quarta para quinta, minha querida avó sofreu um ataque cardíaco e não sobreviveu.

Acordei na quinta feira com uma ligação da minha mãe me contando isso e fiquei anestesiado, sem entender como isso podia acontecer. Não, eu nunca imaginei o mundo sem a minha avó. Não, eu não estou preparado para seguir em frente, sem saber que, mesmo distantes, ela está lá, feliz, rindo, debochando do mundo à sua volta.

No velório, a dor. Uma dor intensa, forte. Lágrimas, choro, soluço. Acho que nunca senti tanto uma perda na minha vida como senti a morte da minha avó ontem. Entretanto, mesmo nesse momento de tristeza, vez por outra era fácil sorrir ao lembrar de como ela se comportaria se visse toda aquela situação. No mínimo ela estaria se divertindo e mandando todo mundo tomar vergonha na cara e não exagerar tanto na dose, porque, convenhamos, não era para tanto. Minha linda avó, minha doce avó. Minha amada avó.

Agora que ela se foi, a nossa vida segue em frente. E eu a levo comigo dentro do peito e nas minhas mais belas memórias. Momentos únicos e particulares, tão nossos e tão significativos.

E não vou me lembrar dela doente ou convalescente , afinal, ela se foi exatamente como sempre disse que iria: em seu auge, como um artista que sabe a hora de dizer adeus. E em minha memória, irei sempre me lembrar daquela senhora desbocada, sentada numa cadeira em sua varanda, morrendo de rir me falando as maiores barbaridades. Porque ela sim soube viver e foi feliz!

E tenho obrigação moral de ser também!

“Devia ter amado mais, ter chorado mais,
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais, e até errado mais,
Ter feito o que eu queria fazer…
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe alegria e a dor que traz no coração…”

Epitáfio (Titãs)

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11 Responses to Sobre Perder e Viver

  1. Rafa disse:

    Querido: Força aí. O importante é isto enquanto estamos vivos, vivermos de verdade. Que bom que sua vó fez isto. Façamos também nós. Bj

  2. Ricardo disse:

    Amigo com certeza a dor se alguem q amamos nos remete para a realidade da morte, e sempre dolorido saber q não mas veremos essa pessoa amada, mas quando em vida se aproveitou todos os bons momentos, possíveis fica so a saudade, q logo se transforma e recordações boas, e no seu caso ficara issu…boas recordações! Qualquer coisa conte comigo, ombro ouvido! Abração

  3. Lobo disse:

    É assim que tem que ser mesmo. A morte é uma etapa apenas, e as pessoas fazem questão de carregar toda a tristeza do mundo com ela. Não é assim. Acho que a morte tem que funcionar mais como celebração. Da vida, como ela é. Uma hora, seremos nós naquele buraco. Será que queremos mesmo toda essa melancolia quando for a nossa vez?

    Beijos Autor!

  4. M. disse:

    “nos olhos do jovem queima a chama. nos do velho, brilha a luz”.

  5. Marco disse:

    Meus sentimentos, amigo.
    Força aí.
    Bjs.

  6. Pinguim disse:

    Os meus sentidos pêsames: só quando perdemos alguém que verdadeiramente amamos, damos o real valo à vida.

  7. não se tem muito o q dizer nessas horas, né?

    minha experiência nesse assunto parou na parte do “eu nunca perdi alguém realmente importante”

    o q importa é q agora vc tem momentos lindos pra lembrar dela, ainda que isso possa não parecer suficiente.

    a vida tem dessas coisas.

  8. Daniel Savio disse:

    Meus pêsames Autor pela a tua perda, mas é parte do ciclo da vida, mas enquanto lembrar dela, o legado dela vivera em ti…

    Fique com Deus, menino Autor.
    Um abraço.

  9. Pedro disse:

    Meus sentimentos, Autor. Num momento desse de perda irreparável de uma pessoa amada, querida, nada mais me resta do que pedir que vc tenha fé e força para superar um momento tão triste.
    O importante é que vc mantenha vivo, na memória, o jeito dela como pessoa tão especial e única que certamente era.
    abraço forte

  10. Vaca Jersey disse:

    Sorry, man!!!!
    Mas se ela foi uma grande avó… com certeza tu tb foi um grande neto!
    O que conta é o vivenciamos – juntos – em vida!
    Força, Autor!!!!
    Hugzzz!

  11. Tathiana disse:

    Vc me fez pensar… E estou realmente despreparada para algo assim. Meu pai tá internado, mas definitivamente não penso nisso agora, estou esperando ele sair dessa (mesmo sabendo que ele não vai tomar vergonha na cara e vai continuar sem se cuidar depois).
    O consolo – único – é que ela foi feliz e te deixou boas lembranças.
    Bjs.

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