Lembranças Desfocadas

Fábio pegou o álbum de fotografias e se perdeu em lembranças.
Aqueles momentos agora estáticos tinham tanto significado, guardavam tantas lembranças, causavam tanta saudade.
Saudade!
Que sentimento era aquele que tanto afligia Fábio? Por quê não conseguia viver o presente e se desapegar do passado?
Mas ela estava sempre lá, batendo no ombro de Fábio e lembrando-o:

-Viu como vc já foi feliz? Como era lindo o seu passado, não?

E as lágrimas escorriam por seu rosto ao se lembrar de tantas gargalhadas, tantos sorrisos, tantos sonhos.
Agora, entretanto, se alimentava do que já passara e tornara-se um refém da saudade.
O que para algumas pessoas era um sentimento acolhedor, com uma palavra para definí-lo apenas em português, para Fábio era uma prisão.
Maldita saudade que o afligia e o impedia de seguir adiante.
Ali, naquelas fotos, via o rosto de Clara. Linda, sorridente, feliz!
Quantas saudades de Clara! Tanta que até doía!
Mas agora ela já se fora e o abandonara.
Como era possível amar tanto uma pessoa e, ao mesmo tempo, odiá-la tanto?
Clara despertava isso em Fábio. Amava-a e odiava-a com a mesma intensidade, com a mesma força, com a mesma paixão.
Bendita e maldita! Perfeita e ordinária!

Conheceram-se e apaixonaram-se!
A convivência perfeita, os sonhos, os planos. Morar junto foi o passo seguinte.
Tudo era perfeito para Fábio.
Até o dia em que ao chegar em casa, encontrou Clara quieta, contemplativa, estranha.
E assim Clara continuou por um bom tempo.

Primeiro ficava assim em alguns momentos. Depois o comportamento se tornou habitual.
Clara deixou de ser luminosa e tornou-se amargurada, seca, áspera.
Até que um dia ela não estava mais lá. Apenas o maldito bilhete:

Não dá mais! Você não me completa. Estou indo embora. Vou sentir saudades, mas já tenho outra pessoa…

Saudades! Ia sentir saudades!
Ela que morresse, fosse pro inferno e se esquecesse dele.
Ele conseguiria refazer a vida, conhecer outra pessoa, ser feliz.
Não conseguiu.
As outras mulheres não tinham graça e Clara tornou-se uma obsessão.
E assim Fábio passou a viver do passado, amargurando aquela saudade do que nunca realmente havia sido verdade.
Trancou-se em lembranças e esqueceu que a vida continuava e que o presente era bem mais belo que aquelas imagens estáticas do álbum de fotografia.
Mas Fábio não sabia disso.
E acabou morrendo sem saber.
26/09/2006


Como acho que poucos aqui conhecem meu lado contista, vasculhando uns arquivos encontrei esse texto e resolvi postar.
É meio trágico, mas eu sempre escrevo com esse tom meio cinza. E gosto do resultado.
Espero que gostem.

OBS: Tenho uma grande amiga que tem fez um blog, mas que não o divulga para ninguém. Mas acho um pecado outras pessoas não terem acesso a material tão bom quanto o que ela coloca lá. Assim, se quiserem ler coisa de qualidade:

Baboseiras Sobre O Tudo E o Nada

 

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20 Responses to Lembranças Desfocadas

  1. André disse:

    Lindo….
    Se vc acha seus textos em tons de cinza….eu não acho.
    Vejo neles tons de quem ama de verdade a vida e sofre com ela pois, quem ama sofre…
    E, nem para todos o cinza é feio ou desagradável…
    bjs gato.

  2. Edu disse:

    Claro que pode vir também! É só pegar o busão! E aceito convites pra ir pra Petrópolis! 🙂

  3. Edu disse:

    Opa, realmente bacana o que sua amiga escreve! Vai pro meu Reader! 🙂

  4. DO disse:

    nem sempre os finais verdaeiros são felizes. é o que vc retrata e muito bem.

    Vou la visitar sua amiga

    Bjo

  5. misterangel disse:

    hmmmm
    desde shakespeare que as histórias de amor precisam ser tristes e trágicas para serem bonitas…
    aprendemos exatamete isso: o amor dói!!!
    eu que o diga!!! tenho uma cama gigante mais confortável impossível… no entanto, é no sofázinho laranja e pequenino que consigo durmir… pois a cama me traz saudades…
    me senti o próprio personagem da sua história… será q vou morrer sem ver um futuro de esperança?
    é bem provável, rsrsrsrs
    ódio da senhora revelar a verdade!!! eu tava iludido que ele ia voltar inferno!!!

    with love

    mister angel.
    ps. você não é a primeira pessoa que me diz que meu prédio é um prédio gay… sei lá, acho que pelo fato do síndico ser gay influencia… digamos que teem atrativos né?
    hehehehehe

  6. jarbas disse:

    antes de qualquer coisa eu devo dizer que não suporto o 3º travesseiro, outra merda da “literatua gls”

    ____________________________

    adorei seu texto… teve uma época que eu escrevia muita coisa, assim, cinza, como você mesmo definio, mas continuo preferindo não publicar.

    até mais.
    abraços.

  7. Marcella Sing disse:

    Gente… e não é que o moço tem talento!!!!
    Belo texto!!!!
    E como sou trágica por natureza, já imaginei um suicídio… isso só pq vc não falou como ele morreu. Pode ter sido aos 96 anos, naturalmente. Mas nãoooo! Algo de novela mexicana tinha que acontecer….

    Também tenho alguns escondidos, mas são impublicáveis de tão tristes! E de tristeza eu quero distância!!!!!!!! Heheheh

    Bjosss

  8. Eduardo disse:

    no começo comecei a achar q fábio era você!!! preciso ter mais atenção ao que leio….
    E otimo conto, realmente triste, mas onde se quer alegria, tem que haver tristeza. Alias, fim trágico e rapido! ahaha
    e passei no blog da sua amiga
    realmente bom!

    ABraços!

  9. eu disse:

    eu comecei a ler e pensei: eu já conheço esse texto. 🙂
    detalhe que só da pra escrever coisa assim qdo se está meio malzinho, né? Com essa fase colorida sua vai ficar mais difícil…rs

    bem que eu tava estranhando tanto comentário naquele blog…quer parar? não é pra divulgar aquilo não, como vou publicar meus podres se alguém ficar lendo? (vc não conta pq vc já conhece quase todos os podres). Humpft!

    PS: pulga atrás da orelha por conta do quase? hahahaha

  10. rubens disse:

    Está “favoritado” com um selo no meu blog! Mais pessoas precisam ler suas palavras!

  11. Shi disse:

    Celavi, né? Claras – e Claros! – existem aos montões, e isso num vai parar de acontecer só pq um dos Fábios morreu sem saber… :-S
    Sobre a saga abaixo, eu vibrei quando nosso amigo deu o jeito que D. merecia! Vá-se atazanar a vida de outro! rs
    Tbm adorei o blog da moça, e tbm não entendi pq ela não divulga… Vou linkar pra poder ir lá mais vezes.
    Vc tá feliz? En~tão eu tô tbm! rs.
    Bjoooooooooooooooo

  12. Sieger disse:

    Adorando seus contos!!

  13. Tathiana disse:

    Eu gostei. Depois coloca mais contos seus por aqui.
    Há tempos não escrevo uma história, um conto ou algo assim… Ando sem inspiração pra isso por enqt.
    Bjs.

  14. Fabiana disse:

    eu sou refém da saudade, prisioneira do passado q não passa, por culpa minha tb que secretamente não deixo q ele passe
    beijos

  15. Marcella Sing disse:

    Ah! E sobre o pagodeiro… que isso, não fala assim não… sou fã condicional, digo, incondicional dele… hehehhee… brincadeirinha ein…

  16. Lucas disse:

    Ah, os textos cinzas! Tenho muitos, e eles sempre ajudam de uma forma. Sobre seu namoro de final de semana: é muito complicado né cara? Eu passava muito tempo pensando em como seria se ele estivesse por perto. E a constatação? Não daria certo de jeito nenhum! Não era pra ser mesmo.

    Grande abraço!

    Lucas

  17. RHENAN disse:

    Adorei o conto. Você escreve muito bem. Parabéns.

    Grande Abraço

    Rhenan
    http://www.sexpride.blogspot.com

  18. atualizei my dear friend
    adorei oconto
    e to ido no blog de sua amiga
    beijos

  19. K disse:

    curiosidade minha: eu só comecei a escrever textos abordando relacionamentos depois que eu deixei alguns mal-resolvidos. Antes, eles nem era assunto. Seria só eu? =)

    Tem que postar, mesmo! =D

  20. Eu achei linda a historia mas gostaria de ver mais historias assim!!!
    Parabens mesmo émuito linda mesmo a história!!!

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