Das Páginas do Velho Diário (3)

…Ele se levantou, deitou no meu lado na minha cama de solteiro e me beijou.

Um beijo urgente, demorado, intenso.

Os dois na estreita cama, mas não precisávamos de mais espaço. Estávamos exatamente onde e como gostaríamos de estar.

No chão, as roupas largadas. Na cama, nossos corpos nus e a descoberta um do outro.

Aquela pele alva que a cada aperto um pouco mais forte ficava vermelha me deixava ainda mais excitado. Os cabelos negros totalmente bagunçados por minhas mãos. Sua boca que passeava pelo meu corpo e me levava às nuvens por me proporcionar tamanho prazer.

O que me intrigava era que não tínhamos tido aquele papo chato do ‘curte o quê?’ tão comum na internet. Estávamos ali e um apenas esperava o outro agir para acompanhar. Não precisamos pré-estabelecer nada. Tudo aconteceu de forma natural.

 

No pós-gozo, deitados na cama e olhando pro teto, um silêncio no quarto. Em minha mente, apenas uma pergunta:

E agora?

 

Ele puxou um papo casual, vestiu sua cueca, se levantou, abriu a janela e ficou olhando pra rua. Ele falava feito uma metralhadora giratória, mas o que tínhamos feito não era o assunto em pauta.

Resolvi dar o tempo dele e fiquei deitado na cama, coberto por um lençol, olhando pro teto e fingindo prestar atenção ao que ele dizia.

 

Foi então que ele ficou quieto. Voltou-se e ainda me lembro da sua imagem: a cueca branca no corpo todo certinho naquele quarto à meia luz.

Veio até mim e me beijou novamente. E tudo recomeçou.

A noite (e o dia seguinte) foram frenéticos. Transamos várias vezes e em cada uma das vezes o prazer era maior, mais intenso.

 

No domingo à tarde, depois do almoço, ele me disse que tinha de ir embora. As despedidas de praxe na minha casa e o acompanhei até a rodoviária. No caminho, os dois em silêncio, até que ele puxou o papo:

-Cara, foi muito bom. –ele disse.

-Eu também achei. Mas, tenho de perguntar… Como ficamos agora? –eu questionei.

-Acho que como estamos. Somos amigos. Ou melhor… Que tal sermos sócios? –ele mandou.

-Sócios? Como assim?

-Sócios. Amigos que tem um segredo e uma sociedade. Me amarrei nessa idéia. –ele disse sorrindo.

 

Deixei-o no ônibus e ele fez uma última recomendação:

-Não vai contar pra ninguém, né?

 

Claro que disse que não contaria.

O ônibus dele foi embora e eu pra casa do meu melhor amigo, o que havia me falado sobre ele, meses antes, dizendo que era o meu número.

Contei tudo, com detalhes sórdidos pro meu amigo que ficou sem acreditar no que eu tinha dito.

-Você é louco, Autor! Totalmente louco! Quer dizer que o D., com aquela carinha, curte? –ele ficava repetindo.

 

A semana passou e não consegui falar com ele. Não aparecia no msn, não atendia aos telefonemas. Chá de sumiço.

Apesar de ter achado tudo excelente, já estava desencanando quando ele surgiu novamente, quase um mês depois. Disse que precisou de um tempo pra acertar as coisas na cabeça dele, mas que agora já estava tudo certo e queria me ver de novo. Acabei indo pra cidade dele e tudo se repetiu.

E entrei num ciclo meio confuso, que funcionava mais ou menos assim: ele tinha tesão e me ligava, a gente se encontrava, a gente transava, ele sumia.

Até que o mais improvável, pelo menos para mim, aconteceu: eu estava apaixonado por ele.

Fiquei desesperado, pois nunca havia me apaixonado por um homem antes e ele não era a pessoa mais indicada pra ser minha primeira paixão gay.

Só pra terem uma idéia da complexidade da situação: ele sozinho em casa num fim de semana, dei meu jeito e fui pra cidade dele. Tudo perfeito, tudo ótimo, o sexo cada vez melhor. Até que uma hora, depois do sexo, ele se senta na beira da cama e fica quieto lá. Eu, preguiçoso por natureza fiquei na minha, deitado. Quando ouvi soluços. Ele chorava quieto e murmurava:

-Eu não posso gostar disso! Eu não posso gostar disso!

 

E essa situação durou 8 meses.

Até que num dia fui surpreendido por ele, depois de um fim de semana perfeito juntos, na hora em que nos despedíamos:

-Cara, essa foi a última vez. Tô meio que gostando de uma garota aí e vamos ser apenas amigos a partir de agora. A sociedade acabou. –ele disse, meio sem graça.

-Tudo bem. –eu disse e fui embora.

 

E no caminho, chorei feito uma criança.

Doeu, eu corri atrás, disse que tava apaixonado e ele me ignorou um bom tempo.

Até que teve tesão de novo e me procurou. E depois me ignorou. E então voltou a me procurar.

Entrei numa relação doentia, em que eu era totalmente subserviente ao tesão dele. E ficava feliz com as migalhas, com o pouco que ele me dava.

 

Até que resolvi mandá-lo se fuder. Sem mim!

Carnaval, praia e, coincidentemente ele me liga dizendo que estava na mesma cidade que eu (coincidência o caralho! Meu amigo me disse depois que ele ligou perguntando onde eu passaria o carnaval). Eu estava na minha pior fase, deprimido, sem motivação pra porra nenhuma, largado na areia quando o telefone tocou e vi que era ele perguntando onde eu estava para logo em seguida aparecer ao meu lado e me chamar pra conhecer o apartamento onde ele estava hospedado, já que todos estavam na praia naquela hora.

Um amigo fez a maldita e mandou a sugestão pra mim:

-Vai, larga de ser bobo. Come ele, goza antes, deixa ele na mão e vai embora.

 

E foi o que eu fiz. E ao sair disse que a sociedade realmente tinha acabado e que era pra ele me deixar em paz.

Por um tempo ele deixou, até que passou a me perseguir. Ligar e não falar nada. Mandar emails dizendo que tava com saudade. Aparecer do nada me chamando pra tomar um chopp.

E eu, cada vez mais seco com ele. Mas sofrendo, pois tudo que eu queria era ceder, apesar de saber que tudo voltaria a ser do jeito dele, da forma que ele queria.

 

Até que no inicio desse ano eu conheci o meu atual namorado. O primeiro homem que estou namorando e que surgiu feito um furacão na minha vida. Não é bem resolvido, não é a pessoa mais simples de se entender, mas é muito mais fácil de lidar do que o D.

E eu me dei conta de que podia gostar de outra pessoa. E de que alguém poderia gostar de mim.

Assim, quando D. me ligou um dia, quando já estava namorando, eu atendi e disse:

-Estou namorando.

-Que legal! Adoro você namorando. Fica ainda mais interessante. –ele disse.

-Namorando um homem. E feliz! –mandei na lata.

– …

-Isso mesmo que você ouviu. Um homem! –enfatizei.

-Você me decepcionou. Nunca imaginei que viraria um viadinho desses… Se bem que essa história é interessante. Que dia vamos colocar chifres nele? –ele insistiu.

 

E eu desliguei o telefone.

Bloqueei e excluí do msn.

E passei a não atender nenhum telefonema com DDD 32 que aparecesse no meu celular.

 

Até que dias atrás chegou o tal email do início dessa história.

 

Dá pra me desbloquear no msn.

Preciso falar com vc.

D.

 

Contei pro namorado e ele disse:

-Mas não vai desbloquear mesmo! Mas pode responder ao email dizendo pra ele falar o que quer por email, pq também fiquei curioso.

 

Foi o que fiz.

A resposta do email?

 

Nada demais.

Apenas estou com saudade da nossa amizade, dos velhos tempos.

Estou querendo marcar de ir na sua cidade, rever seus pais, te dar um abraço.

Pode ser?

D.

 

Saudade?

Sei…

Hoje me sinto aliviado. Mesmo.

Porque tenho a plena consciência de que, pelo menos para mim, essa história é assunto encerrado.

Me traz ainda boas recordações (e outras tantas nem tão boas, que me deixam puto de raiva), mas que ficam somente na lembrança de uma história que eu, definitivamente, não quero reviver.

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23 Responses to Das Páginas do Velho Diário (3)

  1. André disse:

    Não tenho nem o que comentar…
    Acho que qq coisa que diga vai soar desconexo…
    Mas admito que fiquei de boca aberta…
    Bjs meu lindo.

  2. Marcella Sing disse:

    Ufa! Enfim… heheh

    Adorei! Bom, pelo menos aproveitou todos os momentos, né! E muito.
    Decepções acontecem e o barato é aprender com elas… pelo visto vc aprendeu!
    E agora, be happy com seu namorado!!!

    Bjosss

    *Tem mais histórinhas????? Juro que não vou reclamar da ‘novela’….

  3. Latinha disse:

    Tem umas coisas que são “engraçadas”… apesar de todas as diferenças existentes… (personalidade, criação, ambiente, posturas e tudo mais), no fundo no fundo todos nós passamos por situações semelhantes… e também fica a questão de como podemos acabar nos boicotando em função de nossos próprios preconceitos e neuras…

    COmo todo belo texto de se ler… deve ter doido um bocado “vivê-lo”, mas tudo passa e é assim que o impensável a um tempo atrás, acontece.

    “O poeta é um fingidor
    finge tão completamente que chega a fingir que é dor,
    a dor que deveras sente” (Fernando Pessoa)

    Grande semana!!!

  4. misterangel disse:

    Sua vida também é digna de Televisa né amigo? valha-me-Deus…
    porque viado é um ser tão confuso??? não podia ser prático igual a gente?? (ta boua q somos normais, rsrsrsrs)
    bem… o importante é que você tem histórias de sacanagem pra contar pros seus netos… porque com sua idade, logo logo eles virão 😉

    with love

    mister angel.

  5. DO disse:

    Até a gente conseguir “acordar” e se valorizar é todo um longo processo. E doloroso,é verdade. Uns conseguem se livrar rapidamente,outros não. Mas é a confirmação da velha máxima: nada como um novo amor pra esquecermos o que se foi.

    Que bom que seu namorado te encontrou e vcs estão felizes.

    é o que importa.

    Que o passado sirna pra aprendizado. apenas isto.

    Abração!!

  6. rubens disse:

    Retribuindo a visita!

    Parabéns por saber transmitir pelas palavras os seus sentimentos..um dia, gostaria de ser assim!!

    Abração

  7. Eduardo disse:

    Esse é o problema de se relacionar com “héteros”, no fim vc pode acabar virando o disk-sexo deles… Mas pelo menos teve coisas boas!!! E enfim terminou o suspense [imagino que vem outro, não?].
    E nem vem que a camera eh minhaaaaaa! Tipo, meus pais disseram q eu num havia estudado o ano inteiro, e isso um dia antes de uns dos meus vestibas mais dificeis e um dos que eu queria entrar, e eles falam aquela merda… É como uma cena de novela, vontade de devolver e jogar na cara deles a raiva… Mas fico com a cam msm hahahaha

    E longa vida aos namorados!

  8. Edu disse:

    Meu amigo, tirando todo o sentimento da história (fingindo que foi apenas um conto), que perfeição! Não esperava por esse final, relacionado à conversa do MSN. Me pegou direitinho, manteve todo o suspense e teve reviravolta no final. Adorei a historinha! E, agora voltando pra realidade, adorei a sua descoberta de que é possível partir pra outra, sim, e ser mais feliz!

  9. eu disse:

    Faz o senhor muito bem em não deixar os fantasmas ressurgirem das cinzas…de confusão já basta o presente, né?

  10. jackson disse:

    ótimo que está tudo bem resolvido na sua cabeça. não deixe que nada mude seus princípios.

    beijo enorme.

  11. ai
    que história linda
    fiquei até emocionado
    você tem o namorado mais fofo do mundo
    amei ele de cara
    diz pra ele que eu disse que ele é fofo
    e voce merece assim pq eu posso nao te conhecer ainda mas alguem que escreve com tamanha sensibilidade so pode ser um grande amigo.
    me add depois no msn? antoniosergio@gmail.com
    sem mais
    adoro fazer novos amigos
    e sim, essa historia nao saira da minha cabeça
    e esse cara do DDD32 se f**** lindamente! bem feito1
    A-RÁ!

    beijos moço!

  12. Passageiro disse:

    Muito legal vc ter contado tudo para o seu namorado, é o erro de muitos, não entendo como esse caras se sentem héteros, um absurdo isso, ainda bem que é uma pagina virada na sua vida.

  13. K disse:

    Psique humana é tortuosa… Todos temos que conviver com as nossas próprias mentes, mas ter de lidar com a dos outros é complicado demais e raramente proveitoso.

    E acho que seus amigos demoraram! Deviam ter dado o conselho muito antes! =D (Pq o prazer de pisar é… inigualável. rs)

  14. Tathiana disse:

    Ufa! Finalmente vc contou a história.
    Fez bem. A gente q tem facilidade em se apegar às pessoas, tem q tomar mt cuidado, senão somos feitos de gato e sapato. Tb aprendi essa lição muito tempo atrás…
    E a gente fica orgulhoso qd se supera, né?
    Seja feliz!
    Bjs.

  15. loba disse:

    extrapolando o sentido do texto (sem no entando deixar de reconhecer a beleza das ações) tenho a dizer: vc continua sendo um excelente proseador. Talvez eu esteja sentindo falta das suas histórias tão bem contadas e esta me fez lembrar de tantas outras que li. Eu era sua fã. Mas achoq ue hj sou mais!!! rs…
    Beijoconas

  16. SAM disse:

    Meu, sabia que as vezes me emociono com suas histórias?
    São muito fofas!
    XD

    Olha, se voce está feliz ao lado do seu namorado, viva!
    Esse cara só quer te explorar…

    Desejo muitas felicidades ao lado dele!

    Beijo!

  17. Seven disse:

    Olha, li o blog hoje pela primeira vez. Mto bom, cara!
    APAIXONEI!
    Imagina se conhecesse o dono? Brincadeira!

    Abração!

  18. Tânia disse:

    Nada como um dia atrás do outro, e estas histórias que ás vezes insistimos em viver nos servem somente para lembrar que sim! Somos melhores e Merecemos o melhor…

    Mesmo que seja complicado…rsssss…

    Beijo querido…

    Ps.: Feliz Aniversário atrasado!

  19. Fernando disse:

    Como bom espectador sádico de novelas, eu adoraria que você tivesse aceitado D. no MSN para render alguns ótimos próximos capítulos. Hahahaha, imagina?

    No próximo episódio: O reencontro, o cafezinho, a cama e a o arrependimento.

    Mas já tá bom assim. Esse instinto devastador que torce por mais lenha na fogueira são apenas os 87% de inveja da felicidade alheia que ainda permeiam o meu ser.

    Abraços!

  20. Alex disse:

    O que dizer dessa história toda? QUE FASE!!!!!

    O bom nisso tudo é acordar, olhar para trás, ver que tudo não passou de uma fase e seguir em frente com um relacionamento promissor! Porque de pessoas complicadas, ridículas, mesquinhas, fracas, imbecis, aproveitadoras, preconceituosas, corruptas em todos os sentidos, não precisamos nem do inferno, o mundo tá cheio delas. (às vezes me perguntou, PUTZ! Imagina como deve ser o inferno? Será que pode ser pior?)

    Mas como eu vivo no paraíso (que mesmo assim sofre turbulências)… espero mais um pouco para fazer uma visitinha aos mortais, o Olimpo tá muito bom para sair daqui.. hehehehehe

    Beijos e muita sorte com o namorado atual!

  21. Lucas disse:

    Nossa cara, ler o desfecho dessa história delicada me fez pensar em tantas situações que passei no ano de 2005. Algumas se parecem com o que você descreveu. Eu tinha medo de nunca conseguir ser forte o suficiente para sair de algumas delas.

    Mas o bom de tudo é acreditar que a gente tem sempre uma força que nem pensávamos que tinha. E a partir dela, tudo o que vier a gente vai passando por cima. Até um dia que fica tudo mais tranquilo.

    Já sou leitor assíduo.

    Abração, Lucas.

  22. Ludo disse:

    Cara… e eu todo empolgado com a pornô-chanchada… que camarada mais tosco, hein?!

    O bom é que a vida dá voltas, não é meu caro! E a gente consegue encontrar no meio de tanta gente escrota alguém que de fato seja capaz de nos completar… Alguém que te dê prazer apenas ao segurar forte a sua mão…

    Desculpe o sumiço, meu nobre! Tanta turbulência nas últimas semanas me deixou um tanto afastado da blogosfera… Aos poucos estou visitando os blogs dos amigos e comentando os textos.

    Sinto sua falta nos meus blogs tb… é pirraça?! rssss

    Bjão, querido!

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